A régua que decide se você é espiritual o suficiente não é sua

Busca de aprovação nem sempre parece vaidade. Às vezes, ela parece espiritualidade.

Você escreve uma reflexão sincera para postar. Depois lê de novo. Troca uma palavra. Apaga uma frase. Reescreve outra. Talvez você não esteja tentando melhorar o texto. Talvez esteja tentando fazê-lo parecer espiritual o suficiente.

Então publica. E começa a esperar. Não exatamente pelas curtidas. Você espera a curtida daquela pessoa específica. Um líder, um pastor, ou apenas alguém que você respeita. Alguém cuja aprovação, por algum motivo, parece confirmar que você está no caminho certo.

E quando ela não vem, seu coração sente.

Esse é um dos sinais mais discretos da busca de aprovação: quando a opinião de alguém começa a funcionar como uma espécie de espelho espiritual.

Você não quer apenas ser aceito. Você quer parecer bem. Quer parecer maduro. Quer parecer equilibrado. Quer parecer alguém que está vivendo aquilo que prega.

E talvez exista uma diferença enorme entre estar diante de Deus e parecer bem diante das pessoas.

O problema não é querer ser aprovado, mas é precisar ser aprovado.

Existe algo profundamente humano em desejar reconhecimento. O problema começa quando a aprovação deixa de ser um presente e passa a ser uma necessidade.

Você já não pensa: “Seria bom que essa pessoa gostasse do que fiz.”

Você começa a pensar: “Preciso que essa pessoa aprove o que fiz.”

É aí que a liberdade começa a desaparecer.

Provérbios 29.25 apresenta o temor das pessoas como uma armadilha e coloca a confiança no Senhor como o caminho oposto. A imagem é forte: o medo da opinião humana não é apenas uma emoção desagradável. Ele pode prender você.

E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo. Você chama de prudência aquilo que, no fundo, é medo. Chama de sabedoria aquilo que é necessidade de aprovação. Chama de maturidade aquilo que é incapacidade de desagradar.

Você está sendo prudente ou está com medo?

Se você está evitando uma decisão porque sabe que alguém importante ficará desapontado, isso pode parecer prudência. Mas prudência considera consequências reais; o medo da aprovação procura preservar nossa imagem diante de alguém. A diferença aparece quando obedecer a Deus exige que aceitemos ser mal compreendidos por pessoas cuja opinião desejamos muito.

Essa distinção é desconfortável. Porque ninguém gosta de descobrir que aquilo que parecia virtude talvez fosse apenas medo usando roupa de domingo.

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A busca de aprovação transforma a fé em performance

Existe uma forma de cristianismo que não pergunta apenas: “Isso é verdadeiro?” Pergunta também: “Como isso vai parecer?”

Como vai parecer para minha família? Para minha igreja? Para meus seguidores? Para aquela pessoa que considero espiritualmente importante?

Como vai parecer se eu disser que estou cansado? Como vai parecer se eu admitir que estou confuso? Como vai parecer se eu disser que não sei? Como vai parecer se eu discordar? Como vai parecer se eu tomar uma decisão que ninguém esperava?

Aos poucos, a vida cristã começa a funcionar como um palco. Você aprende as falas. Aprende o tom. Aprende as expressões. Aprende até quais vulnerabilidades são aceitáveis.

Você pode falar sobre suas lutas sem realmente revelar suas lutas. Pode fazer uma oração bonita sem dizer aquilo que realmente está acontecendo.

Pode publicar uma reflexão sobre descanso enquanto está desesperado para provar que está dando conta de tudo.

E o mais perigoso é que isso pode acontecer dentro da igreja.

Não precisamos abandonar a fé para transformar a fé em performance.

Basta começar a viver mais preocupados com a percepção dos outros do que com a verdade diante de Deus.

Etimologia de “máscara”

A expressão máscara vem do italiano maschera, que entrou nas línguas europeias medievais e provavelmente se relaciona ao árabe hispânico máshara, com o sentido de “objeto de riso”, “zombaria”, “farsa” ou “personagem”.

A história, porém, não é totalmente consensual. Os etimologistas discutem a origem mais remota de maschera. Uma hipótese importante relaciona a palavra ao latim medieval masca, associado a fantasma, espectro ou bruxa.

Mas há uma coisa ainda mais interessante, máscara não é simplesmente “esconder o rosto”, a máscara tradicionalmente não serve apenas para esconder quem alguém é. Ela também serve para representar alguém que a pessoa não é.

É a diferença entre:

esconder uma identidade

e

assumir uma identidade diante dos outros.

E isso conversa diretamente com a busca de aprovação. A pessoa não necessariamente está mentindo deliberadamente. Muitas vezes, ela começa a construir uma versão de si mesma que acredita ser mais aceitável.

A questão deixa de ser apenas: “O que as pessoas vão pensar de mim?”

E passa a ser: “Qual versão de mim elas precisam enxergar?”

A máscara não esconde apenas quem você é. Ela também apresenta aos outros quem você gostaria que eles acreditassem que você é.

E existe uma consequência espiritual ainda mais profunda:

Quanto mais energia gastamos para sustentar a imagem que criamos diante das pessoas, menos liberdade temos para encarar a pessoa que realmente somos diante de Deus.

Quando até a oração precisa parecer espiritual

Imagine uma reunião de oração.

Chega sua vez.

Você sabe que deveria simplesmente falar com Deus.

Mas existem pessoas na sala.

Então você escolhe as palavras.

Organiza as frases.

Lembra de uma expressão bonita.

Evita dizer aquilo que realmente está vivendo.

Você não está exatamente orando.

Está também administrando a própria imagem.

E talvez ninguém perceba.

Esse é justamente o problema.

A busca de aprovação é sofisticada porque pode continuar funcionando enquanto todos ao redor acreditam que está tudo bem.

Você pode receber elogios pela sua maturidade espiritual enquanto continua profundamente dependente da aprovação de pessoas.

Pode ser considerado equilibrado enquanto vive aterrorizado com a possibilidade de decepcionar alguém.

Pode parecer seguro enquanto toma decisões com o coração preso ao que os outros vão pensar.

A aparência está funcionando.

A alma, nem tanto.

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A 'fé barata' também pode ser uma fé de aparência

Dietrich Bonhoeffer ficou conhecido por sua crítica àquilo que chamou de “graça barata”. Para ele, graça barata era uma forma de falar sobre a graça sem assumir o discipulado, a cruz e a transformação que acompanham o chamado de Cristo.

Há uma aplicação importante disso aqui.

A graça barata não precisa aparecer apenas quando alguém quer viver confortavelmente sem obedecer.

Ela também pode aparecer quando queremos parecer obedientes sem permitir que Cristo confronte aquilo que realmente governa nosso coração.

É possível construir uma imagem de discípulo enquanto continuamos governados pelo olhar das pessoas.

É possível falar sobre liberdade cristã enquanto somos escravos da opinião alheia.

É possível defender a verdade publicamente enquanto, em particular, adiamos decisões verdadeiras porque alguém importante pode não gostar delas.

Isso é uma forma bastante sofisticada de cativeiro.

Porque a pessoa não parece presa.

Ela parece madura.

O que a busca de aprovação está tentando proteger?

Talvez essa seja a pergunta mais importante. Quando você percebe que está editando uma publicação pela quarta vez, pergunte: “O que estou tentando proteger?”

Talvez seja sua reputação.

Talvez seja sua posição.

Talvez seja a imagem de pessoa equilibrada.

Talvez seja a imagem de cristão maduro.

Talvez seja o relacionamento com alguém que exerce influência sobre você.

Talvez seja algo ainda mais profundo: o medo de descobrir que, se aquela pessoa desaprovar, talvez você não saiba mais quanto vale.

É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas social.

Ela se torna espiritual.

Porque, no fundo, a pergunta passa a ser: quem está dizendo quem eu sou?

Você não precisa parecer bem diante de Deus

Existe uma diferença entre ser transformado por Deus e parecer transformado diante das pessoas.

A primeira coisa exige verdade.

A segunda pode ser construída.

Deus não precisa da versão editada de você.

Ele não precisa da oração cuidadosamente produzida.

Não precisa da publicação espiritualmente calibrada.

Não precisa da decisão que você tomou apenas porque sabia que seria bem recebida.

A vida diante de Deus começa quando você para de administrar a própria imagem e começa a tratar a realidade.

Isso não significa sair dizendo tudo para todo mundo.

Não significa transformar vulnerabilidade em exposição.

Não significa abandonar prudência, sabedoria ou respeito.

Significa outra coisa: parar de permitir que o medo da reação das pessoas determine aquilo que você sabe que precisa fazer diante de Deus.

Como começar a sair da busca de aprovação

Não comece tentando deixar de se importar com o que os outros pensam.

Isso seria outra fantasia.

Comece fazendo algo muito mais concreto.

1. Identifique a pessoa cuja aprovação mais pesa

Pense em uma pessoa específica.

Não responda genericamente “as pessoas”.

Quem é?

De quem você mais gostaria de receber aprovação?

Quem consegue alterar seu estado emocional com uma palavra, um elogio ou um silêncio?

Dê nome ao problema.

Escreva o nome dessa pessoa.

2. Encontre a última decisão que você filtrou pelo olhar dela

Pode ser uma publicação.

Uma conversa.

Uma decisão profissional.

Uma posição dentro da igreja.

Uma oração.

Um limite que você deveria ter colocado.

Uma mudança que deveria ter feito.

Pergunte: “Eu faria isso da mesma maneira se essa pessoa nunca soubesse?”

Se a resposta for não, pare por alguns minutos.

Você talvez tenha encontrado a armadilha.

3. Faça hoje uma coisa sem editar para agradar

Pegue a última coisa que você editou ou adiou por medo da reação de alguém.

Pode ser um post.

Uma mensagem.

Uma decisão.

Uma conversa.

E pergunte: “O que eu escreveria, diria ou faria se minha única preocupação fosse ser verdadeiro e obediente?”

Depois, mande a versão sem filtro para uma pessoa madura e confiável.

Não para receber aplauso.

Para sair do esconderijo.

4. Aprenda a suportar ser mal compreendido

Essa talvez seja a parte mais difícil.

Você não controla a interpretação que as pessoas farão da sua vida.

Pode agir com integridade e ainda ser criticado.

Pode tomar uma decisão correta e ainda decepcionar alguém.

Pode dizer a verdade e ainda ser chamado de arrogante.

Pode estabelecer um limite e alguém interpretar como falta de amor.

Pode obedecer a Deus e alguém não gostar.

A maturidade espiritual inclui aprender a sobreviver a isso.

Nem toda desaprovação significa que você errou.

Às vezes, significa apenas que você deixou de obedecer à régua de alguém.

A liberdade começa quando Deus volta a ocupar o lugar de Deus

Talvez você tenha passado anos tentando parecer espiritualmente bem.

Talvez tenha aprendido a esconder o cansaço.

A organizar a oração.

A escolher cuidadosamente as palavras.

A publicar apenas aquilo que confirma a imagem que construiu.

A chamar medo de prudência.

A chamar dependência de aprovação de respeito.

A chamar silêncio de sabedoria.

Mas existe uma vida diferente.

Uma vida em que você não precisa ser a pessoa mais admirada da sala.

Nem a mais espiritual.

Nem a mais equilibrada.

Nem aquela que sempre sabe o que dizer.

Você pode simplesmente ser verdadeiro diante de Deus.

E, a partir daí, começar a viver uma vida que não precisa ser editada para parecer coerente.

Porque talvez a verdadeira liberdade cristã não seja chegar ao ponto em que ninguém desaprova você.

Talvez seja chegar ao ponto em que a desaprovação de alguém já não consegue impedir você de obedecer a Deus.

E isso começa pequeno. Deve começar hoje.

Pegue aquela última coisa que você editou, escondeu ou adiou por medo da reação de alguém.

Olhe para ela novamente.

Pergunte a si mesmo: “Estou sendo prudente ou estou com medo?”

Depois faça aquilo que a verdade exige.

Mesmo que alguém não goste.

FAQ

Buscar aprovação das pessoas é pecado?

Desejar reconhecimento e pertencimento faz parte da experiência humana. O problema surge quando a aprovação das pessoas passa a governar decisões que deveriam ser orientadas pela verdade e pela obediência a Deus.

Como saber se estou buscando aprovação?

Observe suas decisões. Se você muda aquilo que acredita, diz ou faz principalmente para evitar a desaprovação de determinada pessoa, existe um sinal importante de dependência da aprovação dela.

É errado se importar com o que as pessoas pensam?

Não. Sabedoria considera opiniões, conselhos e consequências. O problema aparece quando a opinião de alguém se torna autoridade maior do que a consciência diante de Deus e os princípios que orientam sua vida.

O que fazer quando tenho medo de decepcionar alguém?

Identifique exatamente o que você teme perder: relacionamento, reputação, posição ou aceitação. Depois compare esse medo com aquilo que você entende ser correto fazer. Comece dando um pequeno passo de obediência.

Como deixar de viver para agradar os outros?

Comece praticando pequenas decisões conscientes. Identifique uma situação em que você normalmente buscaria aprovação e escolha agir de acordo com a verdade, mesmo sabendo que alguém poderá discordar.


Para continuar essa conversa

Se esse texto te moveu de alguma forma, talvez seja porque você já estava se fazendo as perguntas certas. Toda essa conversa tem um endereço. A Nooma. é uma igreja em Novo Hamburgo que se reúne aos domingos, clique aqui.

Vem com a gente.

Roger Stein
Pastor sênior · Nooma Church