Quase todo mundo já orou alguma vez. No corredor do hospital. No banco do carro antes de entrar numa conversa difícil. Na madrugada, quando o silêncio pesa mais do que qualquer barulho. Não importa o que a pessoa acredita ou não acredita — em algum momento ela dirigiu alguma palavra para algum lugar.

A questão não é se você já orou. A questão é o que você pensou que estava fazendo quando orou. Porque a resposta para isso muda tudo.


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A definição mais comum e por que ela não funciona

A maioria das pessoas carrega a mesma ideia sobre o que é oração: é pedir. Você faz uma lista mental, dirige para o alto e espera retorno. Uma espécie de mensagem enviada para um endereço que você não tem certeza se existe.

O problema não é que essa definição seja totalmente errada. É que ela é incompleta — e a parte que falta é justamente a mais importante.

Se orar é fundamentalmente pedir, então a oração só faz sentido quando a resposta vem. Quando o resultado esperado acontece. E quando não acontece — e frequentemente não acontece da forma que esperávamos — a conclusão é quase automática: ou Deus não existe, ou não está ouvindo, ou não se importa.

Tanta gente abandonou a oração não porque tentou e não quis mais. Abandonou porque tentou com a definição errada. E quando a definição está errada, a prática inevitavelmente decepciona.

Então, de onde veio essa ideia? E — mais importante — o que a palavra oração realmente significa?

O que a origem da palavra revela

A palavra mais comum para oração no Antigo Testamento, em hebraico, é tefillah. E ela esconde algo surpreendente.

A raiz dessa palavra — palal — não significa pedir. Não significa implorar. Em sua forma reflexiva, a palavra significa julgar a si mesmo. Posicionar-se diante de uma realidade maior e enxergar-se com clareza.

Orar, na compreensão hebraica, não é principalmente falar com Deus sobre o que você quer. É deixar que a presença de Deus ilumine o que você realmente é.

No Novo Testamento, a palavra grega mais usada para oração é proseuche. Ela é formada por duas partes: pros — que significa voltado para, face a face — e euchomai — falar, expressar. Orar é aproximar-se com o rosto voltado para Deus. Não é um pedido enviado para um endereço desconhecido. É uma aproximação consciente, com o rosto exposto.

As duas palavras juntas apontam para a mesma direção: oração é posicionamento, não transação.


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O que Jesus mostrou sobre oração antes de dizer qualquer coisa

Quando os discípulos pediram a Jesus que os ensinasse a orar, ele poderia ter começado com um pedido. Com uma lista. Com uma fórmula de como fazer chegar a resposta certa.

Ele não fez isso.

O que ficou conhecido como Pai-Nosso — o modelo de oração cristã por excelência — não começa com nenhum pedido. Começa com um reposicionamento:

Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como também temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. [Pois teus são o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.] Mateus 6.9-13

Antes de qualquer petição, há reconhecimento. Quem é Deus. Onde ele está. O que importa a ele. Só depois disso vem o pão de cada dia, o perdão, o livramento do mal.

Jesus não ensinou uma técnica de pedido mais eficiente. Ensinou uma postura de relação. Primeiro você se orienta — reconhece com quem está falando, reconhece quem você é diante dele. Depois o resto flui a partir desse lugar.

A ordem importa. Não é por acaso que o reconhecimento vem antes do pedido. É porque sem o reconhecimento, o pedido ainda é um monólogo.

A definição que muda tudo

Se a origem das palavras e o modelo de Jesus apontam na mesma direção, então o que é oração de verdade?

Não é o ser humano tentando convencer Deus. É um convite — Deus convidando o ser humano a se aproximar com o rosto descoberto.

É o espaço onde, ao se posicionar diante de Deus, a pessoa começa a se enxergar com clareza. Sem as histórias que conta para si mesma. Sem as distrações que preenchem o dia. Com uma honestidade que raramente conseguimos manter quando estamos sozinhos.

Tomás de Aquino, um dos pensadores mais rigorosos da história do Cristianismo, definiu a oração como a elevação da mente a Deus. Não a lista de desejos. A elevação. Um movimento de reorientação.

E esse movimento — esse reposicionamento diante de Deus — é o que a oração cristã tem de diferente de qualquer outra prática espiritual. Não é você tentando alcançar o divino. É o divino criando a condição para que você possa se aproximar.

Isso muda o critério pelo qual a oração é avaliada. Ela não falhou quando a resposta não foi a esperada. Ela funcionou quando você saiu dela vendo a realidade — e a si mesmo — com mais clareza do que entrou.

E o que fazer com isso agora

Não existe fórmula. Não existe técnica que garanta resultados. Mas existe uma pergunta diferente para começar: em vez de “o que eu preciso pedir?”, a pergunta pode ser “quem eu estou encarando quando oro?”

Porque se você está apenas enviando pedidos para o vazio, a decepção é previsível. Mas se você está se aproximando — com o rosto voltado, como diz o grego — de um Pai que ouve, então até o silêncio tem outro peso.

A próxima vez que você sentir o impulso de orar — mesmo sem saber bem por que, mesmo sem ter as palavras certas — talvez esse impulso não seja fraqueza. Talvez seja o sinal mais honesto que você já teve de que existe alguém do outro lado. E que esse alguém já está olhando para você antes de você começar a falar.


Para continuar essa conversa

Se esse texto te moveu de alguma forma, talvez seja porque você já estava se fazendo as perguntas certas. Toda essa conversa tem um endereço. A Nooma. é uma igreja em Novo Hamburgo que se reúne aos domingos, clique aqui.

Vem com a gente.

Roger Stein
Pastor sênior · Nooma Church